Baia 26

Trabalhar não é problema, problema é ter de trabalhar

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Que noite cruel de vigília, ainda mais cruel do que tantas outras cujos horrores já havia provado!
Eis-me pois ainda mil vezes mais desgraçado do que dantes!
Não creio em homem algum, em mulher alguma: sou a descrença viva, o ceticismo animado.
Desconfio de todos.
Aborreço a vida, mas sendo obrigado a viver, como vai correr a minha vida?
Um por um todos se arreceiam de mim, e todos me detestam.
Em toda parte sou por todos enxotado, de toda parte repelido.
Ninguém me quer ver; quando apareço, ninguém me tolera.
Tocou-me a lepra moral.
Eu sou como a peste, pois todos fogem de mim; sou pior que a peste, sou como um cão hidrófobo que se persegue, e cuja morte se deseja!
MACEDO, Joaquim Manuel de. A luneta mágica. Rio de Janeiro: Ediouro, [1998].

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A melhor maneira que a gente tem de fazer possível amanhã alguma coisa que não é possível de ser feita hoje é fazer hoje aquilo que hoje pode ser feito. Mas se eu não fizer hoje o que hoje pode ser feito e tentar fazer hoje o que hoje não pode ser feito, dificilmente eu faço amanhã o que hoje também não pude fazer.
FREIRE, Paulo. Apud CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos!: Provocações Filosóficas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010. 10ª edição. P. 113.

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Quando uma pessoa inicia uma atividade ou prática específica, esta pode parecer assustadora no estágio inicial, mas pela constante familiaridade, pelo reforço da determinação é possível torná-la mais fácil. Não é a prática em si que se tornou mais fácil, muram a atitude e o estado mental da pessoa. Isso acontece porque a aparência do fenômeno mudou.
DALAI LAMA. A arte de lidar com a raiva: o poder da paciência. Tradução de A.B. Pinheiro de Lemos da versão em inglês de Geshe Thypten Jinpa. Rio de Janeiro: Campus, 2001.

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"Um dia mostrara Leroux. ‘Repare como é bela esta fealdade que afugenta o amor…’ Era talvez àquela fealdade, que fizera consagrar sua vida exclusivamente ao ofício, que Leroux devia a sua grandeza."

 - SAINT-EXUPÉRY, Antoine. Correio sul - Vôo Noturno. São Paulo: Abril Cultural, 1974. 1a. edição. P. 174. Tradução de Pierre Santos.

fonte da foto: Aviastar.org

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Trabalhando só pelos bens materiais construímos nós mesmos nossa prisão. Encerramo-nos lá dentro, solitários, com nossa moeda de cinza que não pode ser trocada por coisa alguma que valha a pena viver.
Se procuro entre minhas lembranças as que me deixaram um gosto durável, se faço o balanço das horas que valeram a pena, certamente só encontro aquelas que nenhuma fortuna do mundo ter-me-ia presenteado. Não se compra a amizade de um Mermoz, de um companheiro a quem estamos ligados para sempre pelas provas sofridas juntos.
Esta noite de voo e suas cem mil estrelas, esta serenidade, esta soberania de algumas horas, o dinheiro não compra.
Esta face nova do mundo depois de uma etapa difícil, estas árvores, estas flores, estas mulheres, estes sorrisos docemente coloridos pela vida a que regressamos de madrugada, esse mundo de pequenas coisas que nos recompensam, o dinheiro não compra.
SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Terra dos Homens. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. 26ª edição. P. 32.

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Acabado o serviço! Néri e eu iríamos à cidade. Pela madrugada em Casablanca já há uns botequins abertos… Néri e eu sentaríamos a uma pequena mesa, bem seguros, rindo da noite passada, diante dos pãezinhos quentes em forma de meia-lua e do café com leite. Néri e eu receberíamos aquele presente matinal da vida. Assim também a velha camponesa só atinge o seu deus através de uma imagem pintada, de uma ingênua medalhinha, de um rosário; é preciso que nos falem numa linguagem bem simples para que possamos entender. A alegria de viver se resumia para mim naquele primeiro gole matutino, cheiroso e quente, naquela mistura de leite, café e trigo que nos liga às pastagens calmas, às culturas exóticas, e às searas - que nos liga à terra inteira. Entre tantas estrelas não havia nenhuma outra em que se enchesse para nós a xícara perfumada do café da manhã.
SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Terra dos Homens. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. 26ª edição. Pp 22-23.

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